MEDO!
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“A mais antiga e mais poderosa emoção da humanidade é o medo, e que o mais antigo e mais poderoso tipo de medo é o medo do desconhecido”. – H.P. Lovecraft

Há muitos fenômenos inexplicados. Há alguns que parecem inexplicáveis. E o indefinido, o inexplicado, o inexplicável, é não apenas desconfortável, é uma lembrança de um mundo abismal de perigos que sequer imaginamos. Como tal, se esperaria que todos temessem o desconhecido, o misterioso, como muitos de fato temem.

Entretanto, outro tanto de nós, este autor incluído, adora mistérios. Há um enorme mercado ávido pelo inexplicado, pelo oculto, por enigmas. Bem, há um mercado para filmes de terror, há um mercado para palavras-cruzadas. Mas a fascinação pelo mistério a despeito de seu terror também pode ser entendida de outras formas.

Uma delas é a de que o medo do desconhecido pode ser combatido com a mera ilusão de conhecimento. Basta inventar e, importante, acreditar em uma explicação arbitrária para que o inexplicado deixe de ser um incômodo, ao menos a nossas próprias mentes. Acredite-se nestas explicações, e o medo do desconhecido será apaziguado. Há uma luz desconhecida no céu? São naves alienígenas de Zeta Reticuli. Ou são bêbados e loucos vendo coisas. A Igreja Católica parece anacrônica e corrupta? É parte de uma grande e elaborada conspiração que se iniciou há milênios e engloba todos os governos do planeta. Que são comandados por seres reptilianos capazes de mudar de forma. Aquele que encontre resposta fácil e segura a tudo provavelmente não sabe de tudo, apenas acredita em tal. Não aprecia de fato um mistério, mas a explicação que pensa que responde a tal mistério.

A mera fé pode resolver o medo do desconhecido mas não lida realmente com a questão, podendo mesmo agravá-la. De pouco adianta perder o medo do desconhecido se continuamos tão ou mais vulneráveis e distantes de entender o mundo em que vivemos. Combater ao invés o medo do desconhecido através da luz real do conhecimento é seguramente a alternativa mais promissora, e é justamente uma das formas de entender o empreendimento científico, a própria ciência. E a confiança, pode-se dizer mesmo a fé no sucesso deste empreendimento é a segunda forma pela qual se pode adorar verdadeiramente um mistério.

Outro grande escritor, Isaac Asimov, lembrava que a mais excitante expressão a se ouvir na ciência, a que anuncia novas descobertas, não é “Eureka!” mas “Que estranho…”. Cada anomalia, cada evento inexplicado, cada OVNI ou caso paranormal pode ser o primeiro requisito para uma nova, e melhor, explicação, para um maior e melhor conhecimento. No dia em que não houvesse mais nada inexplicado, não haveria mais nenhum conhecimento a adicionar. A ciência teria exaurido seu papel. Podemos acreditar que este dia ainda está muito distante.

Mais do que um corpo de conhecimento, a ciência é uma forma de adquirir conhecimento, verificável, que apazigúe não só o nosso medo do desconhecido, mas o de qualquer pessoa que se depare com o mesmo fenômeno, seja ela cristã, muçulmana, zen budista, acredite em duendes, unicórnios ou em Papai Noel. Para que o desconhecido não precise ser combatido com mera fé e sim com conhecimento que possa ser testado e aplicado.

Acreditar no desígnio divino pode oferecer conforto em meio a uma epidemia de varíola, mas entender que é uma doença contagiosa e comprovar que pode ser prevenida por vacinas oferece conhecimento verdadeiro para apaziguar nossos temores. E mesmo erradicar por completo esta terrível doença.

Nem todos cientistas podem abraçar anomalias com empolgação. Cientistas são apenas seres humanos buscando praticar ciência. Nem sempre o fazem, e os mais destacados cientistas não proferem conhecimento científico a toda declaração que dão, assim como se William Bonner chamar um táxi, isso não terá sido uma reportagem do “Jornal Nacional”. Ao menos se não for gravada e tiver ido ao ar entre intervalos comerciais.

A ciência, como repetimos, pode ser entendida como a busca pelo conhecimento que se inicia com o desconhecido. Se você presenciou um fenômeno inexplicado, ele pode ser o primeiro passo para um novo conhecimento, para uma contribuição científica. Partilhe o que descobriu, em todos os detalhes, com o maior número possível de registros – fotos, vídeos, amostras, testemunhas. Algum cientista pode se interessar. Envie para nós, poderemos nos interessar. A ciência e a tecnologia oferecem hoje ferramentas para que qualquer cidadão possa divulgar suas descobertas a um enorme número de pessoas.

Apenas leve em consideração que depois de mais de três séculos buscando combater o desconhecido com conhecimento, descobrimos sim muitas, muitas coisas, e é bem possível que o fenômeno que você tenha encontrado possa ser entendido através daquilo que já conhecemos. De verdade. Um cientista que lhe diga que algo pode ser explicado de forma convencional pode soar arrogante, mas pense também se você, ao rejeitar tal explicação, também não pode soar arrogante ao contrariar não apenas o cientista, mas gerações de milhares de pessoas buscando sinceramente, como você, explicar o desconhecido. Será você realmente o primeiro a se deparar com tal fenômeno? Será o único a entendê-lo realmente? Ou a explicação que pensa que responde a tal mistério se tornou mais atraente que o próprio mistério?

Você pode, ao final, estar sim correto. Pode, por outro lado, estar errado, assim como um cientista, assim como toda uma comunidade de cientistas. Assim como podemos estar errados nas explicações que aventamos aos muitos casos que abordamos aqui em Ceticismo Aberto. Como não só podemos estar errados, como estivemos errados em não tão poucas ocasiões. Afinal, leigos, estamos mais próximos de você, caro leitor e leitora, do que de qualquer grande autoridade científica mais familiarizada não só com o método científico como com o corpo de conhecimento da ciência.

Acima de tudo, o que é preciso é combater o medo do desconhecido através da busca de explicações verdadeiras, que não dependam de mera fé, que possam ser demonstradas para que não só uma comunidade de crentes, mas todos nós, crentes ou descrentes, possamos entender mais uma pequena parte de um mundo repleto de fenômenos a compreender. Que o medo do desconhecido seja encarado de frente como uma oportunidade de expandir aquilo que é conhecido.

Que o mistério seja apreciado pelo que é e não pelo que queiramos que seja.

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[Ensaio motivado por um convite da Janela Lateral e pelas críticas que recebemos constantemente de nossos leitores, crentes ou descrentes]

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