Os Treinamentos de Plena Atenção budistas são diretrizes para viver todos os dias. A maioria das regras religiosas são proibições que começam com o controle do corpo – não matar, não roubar, e assim sucessivamente. Os Quatorze Treinamentos de Plena Atenção da Ordem do Interser começam com a mente, e os primeiros sete lidam com problemas associados à mente. De acordo com o Buda, “A mente é o rei de todos os dharmas. A mente é a pintora que pinta tudo.” Os Quatorze Treinamentos de Plena Atenção refletem o Nobre Caminho Óctuplo, o ensinamento básico tanto na escola Theravada e quanto Mahayana. O Caminho Óctuplo pode ser descrito como o treinamento essencial. O Caminho Óctuplo também começa com a mente – Visão Correta e Pensamento Correto. Nós podemos organizar os Quatorze Treinamentos em três categorias. As primeiras sete com a mente, os próximos dois com a fala, e os últimos cinco com o corpo, embora tenhamos que perceber que esta divisão é arbitrária. A mente é como uma lâmpada de consciência, sempre presente. Os que regularmente recitam e praticam os treinamentos de plena atenção verão isto.

Abertura
Consciente do sofrimento causado pelo fanatismo e pela intolerância, estou determinado a não idolatrar ou me limitar por doutrinas, teorias ou ideologias, mesmo o budismo. Os ensinamentos budistas são princípios que me ajudam a aprender como observar profundamente e como desenvolver minha compreensão e minha compaixão. Eles não são doutrinas pelas quais se deva lutar, matar ou morrer.

Quando nós lemos os sutras, os discursos do Buda, ouvimos freqüentemente a expressão, “o grande rugido do leão.” Isto representa a verdade ruidosamente e claramente proclamada pelo próprio Buda ou um dos seus grandes discípulos. O Primeiro Treinamento de Plena Atenção da Ordem de Interser está muito alinhada a essa tradição. É a voz compassiva do Buda que nos chama.

O Buda considerou os seus próprios ensinamentos como uma balsa para cruzar um rio e não como uma verdade absoluta a ser adorada ou para se apegar. Ele disse isto para impedir o dogmatismo rígido ou que o fanatismo criasse raízes. Inflexibilidade ideológica é responsável por boa parte dos conflitos e violência no mundo. Muitos textos budistas, inclusive os sutras Kalama, Arittha (Sabendo o Modo Melhor de Pegar uma Cobra), e Vajracchedika (Diamante Que Corta a Ilusão), falam deste assunto importante. De acordo com os ensinamentos budistas, o conhecimento pode ser um obstáculo à verdadeira compreensão e visões podem ser uma barreira ao insight. Apegos a visões podem nos impedir de chegar a um entendimento mais profundo da realidade. O budismo nos urge que transcendamos mesmo nosso próprio conhecimento se desejarmos avançar no Caminho de Despertar. Visões (drishti) são consideradas como “obstáculos ao conhecimento.”

 

O PRIMEIRO TREINAMENTO
O Primeiro Treinamento da Ordem de Interser nos mostra a abertura total e a tolerância absoluta do budismo. Abertura e tolerância não somente são modos para se lidar com pessoas na vida diária, são portais para a realização do Caminho. De acordo com o budismo, se não continuarmos ampliando os limites de nossa compreensão, seremos capturados por nossas visões e incapazes perceber o Caminho.

No Sutra das Cem Parábolas, o Buda conta a história de um jovem comerciante e seu filho. O comerciante, um viúvo, amou seu filho afetuosamente, mas o perdeu devido à falta de sabedoria. Um dia, enquanto o homem estava fora, seu pequeno filho foi seqüestrado por uma gangue de bandidos que arrasaram a aldeia inteira antes de fugir. Quando o jovem comerciante voltou para casa, achou os restos carbonizados de uma criança próximo de onde ficava a sua casa, e no seu sofrimento e confusão, confundiu aqueles restos carbonizados com o seu próprio filho. Ele chorou incessantemente, organizou uma cerimônia de cremação e a partir dessa data levava a bolsa de cinzas com ele dia e noite, amarrada ao redor do seu pescoço. Alguns meses depois, o pequeno menino conseguiu escapar dos bandidos e achar o caminho da sua casa. À meia-noite, ele bateu na porta da casa reconstruída do seu pai, mas o pai, pensando que algum menino perverso o estava ridicularizando, se recusou a abrir a porta,. O menino bateu e bateu, mas o comerciante ficou agarrado à sua visão de que o seu filho estava morto, e assim o seu filho teve que ir embora. Este pai que amou muito perdeu para sempre o seu filho.

O Buda disse que quando estivermos apegados a visões, até mesmo se a verdade vem para nossa casa e bate em nossa porta, nos recusaremos deixá-la entrar. Abraçar de forma inflexível uma visão e considerá-la como verdade fixa é terminar o processo vital de investigação e despertar. Os ensinamentos do Buda são meios de ajudar as pessoas. Eles não são um fim para se adorar ou lutar.

Agarrar-se fanaticamente a uma ideologia ou uma doutrina não só nos impede de aprender, mas também cria conflitos sangrentos. Os piores inimigos da sabedoria são o fanatismo e a estreiteza. Guerras religiosas e ideológicas arruinaram a paisagem da história humana durante milênios. Guerras santas não têm lugar no budismo, porque matar destrói o valor do próprio budismo. A destruição de vidas e valores morais durante a Guerra de Vietnã foi fruto do fanatismo e da estreiteza. A Ordem do Interser nasceu durante aquela situação de sofrimento extremo, como uma flor de lótus que surge de um mar de fogo. Entendido neste contexto, o Primeiro Treinamento de Plena Atenção da Ordem de Interser é a voz compassiva do Buda em um oceano de ódio e violência.

O Primeiro Treinamento de Plena Atenção inclui todos os outros, inclusive o treinamento de não matar e proteger toda a vida. De acordo com o budismo, ações surgem em três domínios: corpo, fala e mente. Nós normalmente pensamos que a matança acontece no domínio do corpo, mas uma mente fanática pode causar a matança de não apenas um, mas de milhões de seres humanos. Se nós seguimos a orientação do Primeiro Treinamento de Plena Atenção, todas as armas se tornarão inúteis.

Da mesma forma que são necessários vários tipos de remédio para tratar uma variedade de doenças, o budismo também precisa propor várias portas de Dharma para pessoas de circunstâncias diferentes. Embora estas portas de Dharma possam diferir uma da outra, elas são todas portas de Dharma. De maneira similar, são tratadas doenças diferentes com remédios particulares, mas todos os tratamentos usam algum tipo de remédio, até mesmo se o remédio for somente água, ar, ou massagem. Os ensinamentos e práticas achadas no budismo podem variar, mas todos eles objetivam a liberação da mente. O Buda disse, “A água nos quatro oceanos tem só um gosto, o gosto de emancipação”. Os estudantes de budismo precisam ver os vários ensinamentos na mesma luz. Franqueza e desapego a visões deveriam estar guiando os princípios para todos os empenhados na reconciliação e paz. Eles também são as portas que conduzem ao mundo da realidade última e da liberdade absoluta.

O SEGUNDO TREINAMENTO
Desapego a Visões

Consciente do sofrimento causado pelo apego a conceitos e percepções errôneas, estou determinado a não possuir uma mente limitada e amarrada às idéias atuais. Aprenderei e praticarei o desapego a pontos de vista a fim de estar aberto a outras compreensões e experiências. Estou consciente de que o conhecimento que possuo não é imutável e não constitui verdade absoluta. A verdade é encontrada na vida e a observarei tanto no meu interior como ao redor de mim, em cada momento, pronto a aprender através de toda a minha vida.

O Segundo Treinamento de Plena Atenção nasce do Primeiro, e lida com a mente também. Este treinamento nos adverte a não ser pegos em nosso próprio conhecimento. Conhecimento pode ser necessário para pensar e julgar e pode ser útil em muitas partes de nossa vida diária, mas não é a verdade mais alta. Quando nós contemplarmos um pôr-do-sol, pensamos que o sol está sobre o horizonte, mas um cientista nos falará que o sol já se pos oito minutos mais cedo. Leva esse tempo para nós o vermos. Nós percebemos que vimos só o sol do passado e não o sol do presente, que nossa percepção era errônea. Mas se nós fôssemos nos apegar ao nosso conhecimento prévio, perderíamos a oportunidade de avançar em nossa compreensão.

O budismo nos ensina a olhar para as coisas na sua natureza de interser e de co-surgimento dependente. Quando fizermos isto, nos livramos de um mundo no qual cada coisa parece ter uma identidade individual. A mente que vê as coisas no seu interser, na sua natureza de co-surgimento dependente é chamada de a mente de compreensão não discriminativa. Esta mente transcende todas as visões. No Budismo Zen, há uma expressão que descreve este estado de insight: “A estrada da fala foi bloqueada, o caminho da mente foi cortado.”

“A verdade é achada na vida” e não somente no conhecimento conceitual. Como praticamos isto? Observando realidade em nós mesmos e no mundo a todo momento. Esta é a resposta budista. Observar a vida continuamente é praticar de acordo com o método do Sutra dos Quatro Estabelecimentos de Plena Atenção (Satipatthana). O sutra nos ensina como estar atento ao que está entrando em nosso corpo, em nossos sentimentos, em nossa mente, e ao objeto de nossa mente que é o mundo. A prática de plena atenção pode nos ajudar a desenvolver a concentração e insight, de forma que possamos ver realidade como ela é.

O TERCEIRO TREINAMENTO
Liberdade de Pensamento

Consciente do sofrimento causado quando imponho meus pontos de vista aos outros, comprometo-me a não forçar ninguém, nem mesmo os meus filhos, por quaisquer que sejam os meios, tais como: autoridade, ameaça, dinheiro, propaganda ou doutrinação, a adotar os meus pontos de vista. Respeitarei o direito das pessoas de serem diferentes e de escolherem no que acreditar e os meios pelas quais decidirão. Contudo, ajudarei a renunciarem ao fanatismo e à estreiteza através de um diálogo compassivo.

Este Terceiro Treinamento de Plena Atenção lida com a questão de liberdade de pensamento, e, portanto com a mente. Muitos pais, sem estar atentos a isso, não seguem este treinamento de plena atenção. Respeitar os pontos de vista dos outros é uma característica, um carimbo oficial do budismo. O Kalama Sutta é uma das primeiras escrituras sobre livre questionamento. Nele, o Buda discute o problema de quem ou o que acreditar e qual doutrina é a melhor. O Buda diz, “é ótimo ter dúvida. Não acredite em algo só porque que as pessoas pensam que é algo elevado, ou porque veio de tradição, ou porque é achado nas escrituras. Considere se vai contra seu julgamento, se poderia causar dano, se é condenado por pessoas sábias e, acima de tudo, se colocado em prática provocará destruição e dor. Qualquer coisa que você julga ser bonito, de acordo com seu julgamento, é apreciado por pessoas sábias e, uma vez posto em prática, provocará alegria e felicidade, pode ser aceito e pode ser posto em prática.”

Como uma sombra segue um objeto, o Terceiro Treinamento de Plena Atenção segue o Segundo, porque a atitude de franqueza e desapego de visões cria respeito pela liberdade dos outros. Liberdade é um dos direitos mais básicos do ser humano – de todos os humanos e não só alguns. Para ser capaz de respeitar a liberdade outros, precisamos nos livrar do apego e fanatismo e ajudar os outros a fazer o mesmo. Como podemos ajudar outras pessoas? “Através do diálogo compassivo” diz este treinamento. Diálogo compassivo é a essência da ação não violenta (ahimsa). Ahimsa começa com as energias de tolerância e bondade que são expressadas pela fala suave, compassiva e inteligente que podem emocionar o coração das pessoas. Passa então ao campo da ação para criar pressão social e moral para as pessoas mudarem. Entendimento e compaixão devem ser a base de todas as ações não violentas. Ações motivadas por raiva ou ódio não podem ser descritas como não violentas.

Como pais, temos que respeitar liberdade de pensamento de nossos filhos, até mesmo se eles ainda são muito jovens. Isto nos permitirá aprender com eles. Cada ser humano é único em suas características, capacidades e preferências. Nós deveríamos tentar estar abertos de forma a ver e entender nossos filhos e nos abster de impor nossas predisposições a eles. Embora flores também pertençam à árvore, não são iguais às raízes, folhas, e ramos. Nós deveríamos permitir às flores serem flores, folhas serem folhas e ramos serem ramos, de forma que cada um possa perceber a sua capacidade mais alta a ser desenvolvida.

O QUARTO TREINAMENTO
Consciência do sofrimento

Consciente de que observar profundamente a natureza do sofrimento pode me ajudar a desenvolver a compaixão e a encontrar meios para extingui-lo, estou determinado a não evitar ou fechar meus olhos diante do sofrimento. Estou determinado a encontrar maneiras, incluindo o contato pessoal, imagens e sons, para estar com aqueles que sofrem e, assim, poder compreender sua situação profundamente e ajudá-los a transformarem seu sofrimento em compaixão, paz e alegria.

A primeira conversa de Dharma dada pelo Buda foi sobre as Quatro Nobres Verdades. Esta Primeira Verdade é dukkha, a presença do sofrimento. Este é o ponto de partida de toda a prática budista. Se nós não estivermos conscientes que estamos indispostos, não saberemos buscar tratamento, e não poderemos ser curados. A Segunda Verdade é a causa do sofrimento, a Terceira é a possibilidade de removê-lo, e a Quarta nos conta como fazer isto. Estas são verdades libertadoras. Mas nós não podemos buscar pelas outras três se não aceitarmos a presença da primeira.

O sofrimento pode ter um poder terapêutico. Pode nos ajudar a abrir nossos olhos. A consciência de sofrer nos encoraja a procurar sua causa, descobrir o que vai dentro de nós e na sociedade. Mas temos que ter cuidado. Muito sofrimento pode destruir nossa capacidade de amar. Nós temos que saber nossos limites, ficar em contato com coisas que são assustadoras na vida e também com coisas que são maravilhosas. Se a Primeira Verdade explica a presença do sofrimento na vida, a Terceira Verdade nos encoraja a tocar a alegria e a paz da vida. Quando as pessoas dizem que o Budismo é pessimista, é porque eles estão dando ênfase à Primeira Verdade e estão negligenciando a Terceira. O Budismo Mahayana tem grande preocupação em enfatizar a Terceira Verdade. Sua literatura está cheia de referências ao salgueiro verde, ao bambu violeta, e à lua cheia como manifestações do verdadeiro Dharma.

As interconexões entre nós e os outros seres são íntimas. Quando estivermos calmos e felizes, não criaremos sofrimento aos outros. Quando trabalhamos para aliviar o sofrimento nos outros, nos sentimos calmos e felizes. A prática não é só para nós mesmos, mas para os outros e toda a sociedade. O significado de Mahayana, o grande veículo, é se ajudar e aos outros, se liberar.

Mestres que dizem para não se prestar atenção aos problemas do mundo como a fome, guerra, opressão, e injustiça social, que dizem que nós só deveríamos praticar, não entenderam o significado de Mahayana bastante profundamente. Claro que, nós deveríamos praticar contando a respiração, meditando, e estudando os sutras, mas qual é o propósito de fazer estas coisas? É estar atento ao que está acontecendo em nós mesmos e no mundo. O que está acontecendo no mundo também está acontecendo dentro de nós mesmos, e vice-versa. Uma vez nós vemos isto afetuosamente, não recusaremos a tomar uma posição ou agir. Quando uma aldeia está sendo bombardeada e as crianças e adultos estão sofrendo com feridas e morte, um budista ainda pode ficar sentado no seu templo não bombardeado? Se ele tiver sabedoria e compaixão, achará modos para praticar o Budismo enquanto ajuda as outras pessoas. É dito que a pratica do Budismo é ver dentro da sua própria natureza e se tornar um Buda. Se nós não podemos ver o que está acontecendo ao redor de nós, como nós podemos ver dentro de nossa própria natureza? Há uma relação entre a natureza do eu e a natureza de sofrimento, injustiça, e guerra. Ver dentro da verdadeira natureza das armas do mundo é enxergar dentro da nossa própria verdadeira natureza.

Ficar em contato com a realidade do sofrimento nos mantém sãos e nutre as fontes de entendimento (prajna) e compaixão (karuna) em nós. Afirma em nós a vontade de praticar o caminho do bodhisattva: “os seres vivos são inúmeros; eu juro os ajudar a remar para a outra margem.” Se nos separamos da realidade do sofrimento, este voto não terá nenhum significado. Quando nós ajudamos as crianças a ver e entender o sofrimento dos seres humanos e outros seres vivos, nutrimos compaixão e entendimento nelas. Todo ato, mesmo comer um sanduíche ou gastar dinheiro, são uma ocasião para nós praticarmos consciência. Nós temos que praticar em cada momento de vida diária e não só na sala de meditação.

O QUINTO TREINAMENTO
Viver de forma simples e saudável

Consciente de que a verdadeira felicidade está enraizada na paz, na firmeza, liberdade e compaixão e não na riqueza ou fama, estou determinado a não adotar como propósito de minha vida a fama, o lucro, a riqueza, os prazeres sensuais e nem o acúmulo de riqueza, enquanto milhões de pessoas estão morrendo de fome. Comprometo-me a viver de um modo simples compartilhando meu tempo, energia e recursos materiais com aqueles que necessitam. Praticarei o consumo consciente, não usarei álcool, drogas ou outros produtos que tragam toxinas para o meu corpo, para a minha consciência e para o corpo e a consciência da coletividade.

Como um galho crescendo do tronco de uma árvore, o Quinto Treinamento de Plena Atenção emerge naturalmente do Quarto. O objetivo da vida budista é ter insights (prajna) e ajudar as pessoas (maitrya), e não ganhar fama, poder, ou riqueza. Como nós podemos ter tempo para viver o ideal budista se nós constantemente estivermos procurando riqueza ou fama? Se não vivemos de forma simples, temos que trabalhar todo o tempo para pagar nossas contas e restará pouco tempo para a prática. O Sutra nas Oito Realizações dos Grandes Seres diz, “A mente humana sempre está procurando posses e nunca se sente preenchida. Isto faz as ações impuras aumentarem. Porém, Bodisatvas sempre se lembram do princípio de ter poucos desejos. Eles vivem uma vida simples em paz de forma a praticar o Caminho, e considera a realização do perfeito entendimento como a sua única carreira.”

No contexto de sociedade moderna, viver de forma simples significa também permanecer tão livre quanto possível do impulso destrutivo das pressões sociais e econômicas, para evitar doenças modernas como estresse, depressão, pressão alta e doenças do coração. Temos que ter forte determinação para nos opor ao tipo de vida moderna cheia de pressões e ansiedades que tantas pessoas agora vivem. A única saída é consumir menos e estar contente com menos posses. Nós temos que discutir isto com outros que compartilham de nossa preocupação para achar modos melhores para viver de forma simples e alegre juntos. Uma vez que sejamos capazes de viver assim, poderemos melhor ajudar os outros. Nós teremos mais tempo e energia para compartilhar. Compartilhar é difícil se você for rico. Bodisatvas que praticam o paramita de viver uma vida simples podem dar o seu tempo e a energia aos outros.

O SEXTO TREINAMENTO
Lidando com a raiva

Consciente de que a raiva bloqueia a comunicação e cria sofrimento, estou determinado a cuidar da energia da raiva quando ela surgir e a reconhecer e transformar suas sementes que repousam profundamente na minha consciência. Quando a raiva surgir, estou determinado a não dizer ou fazer qualquer coisa e, sim, a praticar a respiração consciente ou o caminhar consciente e a reconhecê-la, abraçá-la e observá-la profundamente. Aprenderei a olhar com os olhos da compaixão para aqueles que penso serem a causa de minha raiva.

Quando raiva ou ódio surgem, precisamos preparar a base de forma que o entendimento possa surgir. Se nós pararmos o pensamento, fala, e ação, o espaço para ver e entender se abrirá. Assim, no momento que sentirmos a irritação surgindo, precisamos inspirar e expirar conscientemente, pondo toda a nossa mente em nossa respiração. Então, com a energia de plena atenção, poderemos olhar profundamente e ver como a pessoa que está nos causando raiva pode nos ter ajudado no passado, ou como aquela pessoa sofreu, ou como nós mesmos fomos inábeis. Pode levar alguns momentos para percebermos isto ou pode levar vários dias. Até que tenhamos um pouco de compreensão, seria melhor se nos abstivéssemos de dizer qualquer coisa à pessoa que estamos sentindo raiva. Praticar meditação caminhando e respiração consciente é suficiente.

Quando cultivamos um limoeiro, queremos que ele seja vigoroso e bonito. Mas se não for vigoroso e bonito, não culpamos a árvore. Iremos observá-lo de forma a entender por que não cresceu bem. Talvez não tenhamos cuidado bem dele. Sabemos que é engraçado culpar um limoeiro, mas culpamos os seres humanos quando eles não estão crescendo bem. Como nossos irmãos, irmãs e filhos são os humanos, pensamos que eles deveriam se comportar de certo modo. Mas os seres humanos não são muito diferentes dos limoeiros. Se nós tivermos cuidado, eles crescerão apropriadamente. Culpar nunca ajuda. Só amor e entendimento podem ajudar a mudar as pessoas. Se nós cuidarmos bem das pessoas, seremos recompensados pela sua afabilidade. Isto é muito diferente das recompensas que recebemos do nosso limoeiro?

Se eu tivesse nascido nas condições sociais de um pirata e crescido como um pirata, eu seria agora um pirata. Uma variedade de causas interdependentes criou a existência do pirata. A responsabilidade não é somente dele ou da sua família, mas também é da sociedade. Enquanto eu escrevo estas linhas, centenas de bebês estão nascendo perto do Golfo de Sião. Se os políticos, pedagogos, economistas e outros não fizerem algo para prevenir, muitos destes bebês se tornarão piratas em vinte e cinco anos. Cada um de nós compartilha um pouco da responsabilidade pela presença dos piratas. Meditar na origem dependente e olhar com olhos compassivos nos ajuda a ver nosso dever e responsabilidade para com os seres que sofrem. Devido à sua capacidade de ver, o Bodhisattva Avalokiteshvara é capaz de amar e agir. O propósito da meditação é ver e ouvir.

“Sementes de raiva que dormem profundamente em nossa consciência” significa que a raiva ou o ódio ainda não manifestaram. Este treinamento de plena atenção nos aconselha que usemos medicina preventiva. Nós poderíamos pensar que é impossível transformar raiva e ódio inconscientes e que a hora para transformá-los é quando já estivermos nos sentindo bravos. Mas podemos transformar a raiva e o ódio antes deles surgirem. Durante a meditação sentada, podemos jogar a luz da consciência em nossos sentimentos desagradáveis e assim podemos identificar as suas raízes. Podemos olhar diretamente para os sentimentos que normalmente preferimos evitar, e só o nosso olhar para eles começará a transformá-los. Então, quando eles subirem do nosso subconsciente na forma de raiva, não nos pegarão de surpresa. Ou nós podemos plantar sementes de amor, compaixão, e compreensão em nossas vidas diárias, e essas sementes debilitarão as sementes de nossa raiva. Nós não temos que esperar pela raiva surgir para fazer este trabalho. Na realidade, será muito mais difícil de fazer isto uma vez raiva já tenha surgido.

Pode acontecer de nos sentirmos joviais e calmos durante uma ou duas semanas, mas isto não significa que durante aquele tempo as sementes de raiva não estão lá em nossa consciência armazenadora. Por exemplo, quando alguém disser algo que nos fere, poderemos não reagir imediatamente. Mas várias semanas depois, poderíamos ficar com raiva daquela pessoa por uma razão muito pequena.

Eu ouvi falar de uma história de uma criança que espalhou excremento por todas as paredes da sala de estar. A mãe dela tentou remover a bagunça e não parecia estar absolutamente com raiva. Entretanto, alguns dias depois, a pequena menina derramou um pouco de suco de laranja na mesa e a mãe ficou extremamente brava. Obviamente as sementes da raiva tinham sido semeadas ou suprimidas quando a criança espalhou o excremento. Assim, se nós estivermos atentos poderemos lidar com nossa raiva antes que se torne uma bomba prestes a explodir.

Se não pudermos transformar nossa raiva quando ela era apenas uma semente, quando a raiva começar a surgir, ainda poderemos transformá-la seguindo nossa respiração. Se nós não pudermos transformá-la imediatamente, é melhor que deixemos a situação e tomemos refúgio na meditação caminhando. A comunidade em Plum Village pratica o Tratado de Paz, um acordo entre os membros da família ou da comunidade que mostra o que fazer quando ficamos com raiva.

“Olhe para todos os seres com os olhos de compaixão” é uma citação do Sutra de Lótus. Os olhos de compaixão também são os olhos do entendimento. Compaixão é a doce água que surge da fonte do entendimento. Praticar olhar profundamente é o remédio básico para raiva e ódio.

O SÉTIMO TREINAMENTO
Habitando feliz no momento presente

Consciente que a vida é disponível somente no momento presente e que é possível viver feliz aqui e agora, comprometo-me a treinar a mim mesmo para viver profundamente cada instante da vida diária. Tentarei não me deixar cair na dispersão ou ser levado por remorsos do passado, temores em relação ao futuro ou pela raiva, apego ou inveja no presente. Praticarei a respiração consciente para retornar ao que esta acontecendo neste instante. Estou determinado a aprender a arte de viver plenamente consciente tocando os elementos extraordinários, refrescantes e saudáveis que estão dentro e em torno de mim e nutrindo as sementes de alegria, paz, amor e compreensão em mim mesmo, facilitando o trabalho de transformação e cura em minha consciência.

Deveríamos tentar não nos perder na dispersão ou sermos levados por pesares sobre o passado, preocupações sobre o futuro, ou ganância, raiva ou ciúme no presente. O Buda nos ofereceu a prática da plena consciência para nos ajudar a voltar ao que está acontecendo no momento presente. Plena consciência nos permite tocar os maravilhosos, refrescantes e curativos elementos que estão dentro de nós e ao nosso redor e nutrir as sementes de alegria, paz, amor e compreensão em nós mesmos.

Como o caroço de um pêssego, este treinamento de plena consciência está no coração da vida da Ordem do Interser. Quer você viva em um centro de meditação, trabalhe em um escritório, viva com sua família ou estude em uma universidade, a prática da plena consciência é crucial. O caractere chinês para plena consciência tem dois componentes: coração ou mente, e momento presente.

Estar atento significa estar completamente presente no momento – não uma parte de você que lava os pratos enquanto a outra parte está desejando saber quando o trabalho terminará. Plena consciência pode ser praticada ao longo do dia. Caminhando, sentando, estando de pé, deitando, trabalhando, e descansando são todas as ocasiões para a prática. Respiração consciente é o veículo que nos devolve ao momento presente e nos mantém aqui. O Sutra da Plena Consciência da Respiração e o Sutra dos Quatro Estabelecimentos de Plena Consciência nos ensinam como estar atentos ao nosso corpo, nossos sentimentos, nossa mente e os objetos de nossa mente.

Plena consciência conduz a concentração e sabedoria. Nós desenvolvemos concentração e sabedoria junto com um sentido profundo de alegria e felicidade porque, como nós vemos profundamente a natureza de realidade, vemos como é maravilhoso o mundo e os seres dos reinos – animal, vegetal e mineral – que o habitam. Sem plena consciência, nós não estaremos em contato com as flores maravilhosas, a lua gloriosa, nossos filhos, nosso cônjuge ou nossos amigos. Eles são infinitamente preciosos e raros, parte da natureza de interser de todas as coisas.

Plena consciência faz a vida real, profunda e valendo a pena. Ajuda-nos a estar dentro do aqui e agora onde a verdadeira vida pode ser encontrada. Ajuda-nos a entrar em contato com os elementos curativos e refrescantes dentro de nós e ao nosso redor. Ao praticar assim, plantamos e regamos as sementes de alegria, paz e compreensão em nós, as sementes que têm o poder para modificar e transformar a dor e as aflições em nós. Não é somente tocando diretamente estas aflições que nós podemos as curar. Freqüentemente estas aflições e dores podem ser transformadas apenas pela presença das sementes positivas que nós plantamos e regamos em nossa vida diária pela prática de viver atentamente.

No Cânon de Pali, o termo dittha dhamma sukha vihari é freqüentemente usado. Significa habitar feliz no momento presente, nesta mesma vida. Se nós não estivermos contentes e alegres em nossa prática, ela ficará fraca. Alegria e felicidade nutrem nossa prática e a fazem forte. Se nossa prática não transforma nossa vida e nos traz grande alegria, se nós não pudermos trazer alegria aos outros e os entender, nós não estamos praticando corretamente. São reveladas para nós as maravilhas do universo na meditação na interdependência. Nós podemos ver que para que uma coisa exista, tudo mais também precisa existir. “Isto é, porque aquilo é.”

O Quinto Treinamento de Plena Consciência lida com a ganância, o Sexto com a raiva, e o Sétimo com o esquecimento e a falta de entendimento. Os Quatorze Treinamentos de Plena consciência da Ordem de Interser seguem e apóiam uns aos outros como um fio de pérolas.

O OITAVO TREINAMENTO
Comunidade e Comunicação

Consciente que a falta de comunicação sempre traz separação e sofrimento, comprometo-me a treinar a mim mesmo na prática do ouvir compassivo e da fala amorosa. Aprenderei a ouvir profundamente sem julgar ou reagir evitando proferir palavras que possam criar discórdia ou causar ruptura na comunidade. Farei todo o esforço para manter a comunicação aberta e reconciliar e resolver todos os conflitos, mesmo os pequenos.

Os Oitavo e Nono Treinamentos de Plena Consciência tratam da fala. A essência do Oitavo é a concórdia. Vida em comunidade só é possível com concórdia. O Buda prescreveu Seis Acordos, seis princípios de vida em comunidade: morar juntos em um lugar, compartilhar recursos materiais, observar os mesmos treinamentos de plena consciência, praticar juntos e compartilhar a compreensão do Dharma, reconciliar pontos de vista discrepantes e praticar a fala amável para evitar todas as disputas. Estes Seis Acordos foram praticados por comunidades budistas desde o tempo do Buda e ainda são relevantes. Embora o Oitavo Treinamento trate da fala, se relaciona diretamente com todos os Seis Acordos. Quando os primeiros cinco acordos são praticados, é fácil de observar a fala amorosa. Quando houver boa comunicação relativa a idéias e interesses, não é provável que disputas aconteçam.

Fala amorosa nasce do entendimento e da paciência. Praticando o Sexto Treinamento, nós descobrimos que culpar não ajuda. Só o entendimento e o amor podem provocar mudanças. Reconciliação é uma arte, nos exigindo que entendamos ambos os lados de um conflito. Não é apenas fazer com que ambos os lados suportem parcialmente a responsabilidade, mas que mesmo nós que não estamos no conflito, suportemos um pouco dessa responsabilidade. Se vivêssemos em plena consciência, poderíamos ter visto as fases do conflito mais cedo quando ele começava a surgir e poderíamos ter ajudado a evitar.

Reconciliar é não julgar, ficando fora de um conflito. É assumir um pouco de responsabilidade pela existência do conflito e fazer todo esforço para entender o sofrimento de ambos os lados. Então poderemos comunicar a cada lado o sofrimento experimentado pelo outro lado, e oferecer alguma solução baseada em um ideal comum a ambos os lados. O propósito da reconciliação não é para salvar as aparências ou por interesse próprio, mas para realizar compreensão e compaixão. Para ajudar a reconciliar, nós mesmos temos que encarnar a compreensão e compaixão.

Nossa consciência da necessidade de reconciliação e o nosso dever para trabalhar por ela nos autorizará a agir e o sucesso de nossos esforços dependerá do grau de nossa compreensão e compaixão, não só pelos dois lados, mas por nós mesmos também.
Toda verdadeira comunidade é uma comunidade de concórdia. Antes que uma comunidade budista comece uma atividade como recitar os Treinamentos de Plena Consciência, tomar uma decisão, ou executar a cerimônia de transmissão dos Treinamentos de Plena Consciência, o Mestre de Sanghakarman sempre começa perguntando:

“A comunidade está reunida?”
“Sim, a comunidade está reunida.”
“Há harmonia na comunidade?”
“Sim, há harmonia na comunidade.”

Se esta não for a resposta, a reunião não pode se realizar. Esta prática é chamada de Procedimento de Sanghakarman, estabelecido durante o tempo do Buda, e foi praticado por comunidades de monges e monjas ao longo dos últimos vinte e cinco séculos.

O NONO TREINAMENTO
Fala verdadeira e amorosa

Consciente de que as palavras podem criar sofrimento ou felicidade, comprometo-me a aprender a falar com sinceridade e de maneira construtiva, usando somente palavras que inspirem esperança e confiança. Estou determinado a não mentir por interesse pessoal ou para impressionar pessoas e nem proferir palavras que possam causar divisão ou discórdia. Não divulgarei noticias se não estiver seguro de que sejam verdadeiras, e nem criticarei ou condenarei atos dos quais não esteja seguro. Farei o melhor para denunciar situações de injustiça, mesmo quando elas possam ameaçar minha segurança.

Este é o segundo Treinamento de Plena Consciência que lida com a fala. As palavras são simples e claras. Quando falarmos, podemos criar um mundo de amor, confiança, e felicidade, ou um inferno. Deveríamos ter muito cuidado sobre o que dizemos e como dizemos. Se nós tivermos o hábito de falar muito, deveríamos praticar falando menos. Temos que nos dar conta do que nós dizemos e os resultados de nossa fala. Até mesmo dentro de templos budistas, falamos freqüentemente muito, fazendo comentários sobre tudo. Todos nós experimentamos como a fala negativa pode criar um inferno.

Durante retiros, temos a oportunidade de praticar silêncio, reduzindo nossa fala em pelo menos noventa por cento. Esta prática pode ser extremamente benéfica. Não só aprendemos a controlar nossa fala, mas também podemos refletir e nos ver, ver as pessoas ao nosso redor e a vida mais claramente. Quando tivermos a oportunidade de estar em silêncio, poderemos olhar profundamente e sorrir para as flores, a grama, os arbustos, as árvores, os pássaros e aos seres humanos amigos. Vocês que observaram períodos de silêncio completo sabem os benefícios de tal prática. Com silêncio, um sorriso, e fala correta, desenvolvemos paz dentro de nós mesmos e no mundo ao nosso redor.

Fala correta está livre da mentira, fofoca, exagero, linguagem severa e do murmurar tolo. Fala correta constrói a compreensão e a reconciliação. O Nono Treinamento não só requer de nós franqueza, mas também coragem. Quantos de nós são valentes o bastante para falar sobre situações de injustiça, até mesmo quando agindo assim nossa própria segurança pode ser ameaçada?

O DÉCIMO TREINAMENTO
Protegendo a Sangha

Consciente de que a essência e o objetivo de uma Sangha é a prática da compreensão e da compaixão, estou determinado a não usar a comunidade budista para ganhos pessoais, proveitos, ou transformar nossa comunidade num instrumento político. Uma comunidade espiritual deve, contudo, tomar uma posição clara contra a opressão e a injustiça e deve empenhar-se para mudar a situação, sem se engajar em conflitos partidários.

Políticos frequentemente buscam apoio de comunidades religiosas, mas seu objetivo é usualmente político. O objetivo de uma comunidade religiosa é guiar as pessoas no caminho espiritual. Portanto, transformar a comunidade religiosa em um partido político a desvia de seu verdadeiro objetivo. Líderes religiosos podem ficar tentados a apoiar seu governo em troca do bem estar material de sua comunidade. Isto ocorreu através da história. De forma a assegurar o apoio de seu governo, comunidades religiosas frequentemente evitam falar contra a opressão e injustiças cometidas por seu governo. Permitir que políticos usem a sua comunidade religiosa para fortalecer seu poder político é entregar a soberania espiritual de sua comunidade.

“Uma comunidade espiritual, contudo, deve tomar uma posição clara contra a opressão e a injustiça…” Isto deveria ser feito com uma voz clara, baseado nos princípios das Quatro Nobres Verdades. A verdade relacionada com a situação injusta deveria ser claramente exposta (a Primeira Verdade: sofrimento). As várias causas da injustiça deveriam ser enumeradas (a Segunda Verdade: as causas do sofrimento). O objetivo e desejo de remover as injustiças deveriam ficar óbvios (a Terceira Verdade: a remoção do sofrimento). As medidas para remover a injustiça deveriam ser propostas (a Quarta Verdade: o caminho para encerrar o sofrimento).

Embora as comunidades religiosas não tenham poder político, elas podem usar sua influência para mudar a sociedade. Falar é o primeiro passo, propor e apoiar medidas apropriadas para mudar é o próximo. Mais importante é transcender todos os conflitos partidários. A voz do cuidado e entendimento deve ser distinta da voz da ambição.

O DÉCIMO PRIMEIRO TREINAMENTO
Meio de Vida Correto

Consciente de que grande violência e injustiça têm sido impingidas ao meio ambiente e à sociedade, comprometo-me a não viver com uma vocação que seja prejudicial aos homens e à natureza. Farei o melhor possível para escolher um meio de vida que ajude a realizar o meu ideal de compreensão e compaixão. Consciente da realidade econômica, política e social global, terei comportamento responsável como consumidor e como cidadão, não investindo em empresas que privem outros seres da chance de viver.

O Meio de Vida Correto é um elemento do Nobre Caminho Óctuplo. Ele nos urge a praticar uma profissão que não fira nem os humanos nem a natureza, fisicamente ou moralmente. Praticar plena consciência no trabalho nos ajuda a descobrir se nosso meio de vida é correto ou não. Vivemos em uma sociedade onde empregos são difíceis de achar e é difícil praticar o Meio de Vida Correto. Mesmo assim, se nosso trabalho envolve ferir a vida, deveríamos tentar ao máximo achar um outro. Não deveríamos afundar no esquecimento. Nossa vocação pode nutrir nosso entendimento e compaixão ou pode acabar com eles. Nosso trabalho tem muito a ver com nossa prática do Caminho.

Muitas indústrias modernas, incluindo a fabricação de alimentos, são danosas aos humanos e à natureza. A maioria das atuais práticas na agricultura estão longe do Meio de Vida Correto. Os venenos químicos usados pelos fazendeiros modernos ferem o ambiente. Praticar o Meio de Vida Correto se tornou uma tarefa difícil para eles. Se não usarem os pesticidas químicos, pode ser difícil competir comercialmente. Não muitos fazendeiros têm a coragem de praticar a agricultura orgânica. O Meio de Vida Correto deixou de ser uma questão puramente pessoal. É o nosso karma coletivo.

Suponha que eu sou um professor e acredito que nutrindo amor e entendimento nas crianças seja uma ocupação bonita, um exemplo de Meio de Vida Correto. Eu rejeitaria se alguém me pedisse para parar de ensinar e me tornar, por exemplo, um açougueiro. Contudo, se eu meditar na inter-relação de todas as coisas, veria que o açougueiro não é o único responsável pela matança de animais. Ele os mata por todos nós que compramos pedaços de carne crua, embalada de forma limpa e exposta no nosso supermercado local. O ato de matar é coletivo. No esquecimento, podemos nos separar do açougueiro, pensando que seu modo de vida é errado, enquanto o nosso é correto. Contudo, se não comermos carne, o açougueiro não matará ou matará menos. É por isso que o Modo de Vida Correto é uma questão coletiva. O modo de vida de cada pessoa nos afeta e vice-versa. O filho do açougueiro pode se beneficiar dos meus ensinamentos, enquanto meus filhos, como comem carne, dividem a mesma responsabilidade pelo modo de vida de matança do açougueiro.

Milhões de pessoas tiram seu sustento da indústria armamentícia, fabricando armas “convencionais” e nucleares. Estas chamadas armas convencionais são vendidas aos países do Terceiro Mundo, a sua maioria sub-desenvolvidos. As pessoas nesses países precisam de comida, não armas, tanques ou bombas. Os Estados Unidos, a Rússia e a Inglaterra são os principais fornecedores destas armas. Produzi-las e vendê-las certamente não é um modo de vida correto, mas a responsabilidade por essa situação não repousa apenas nos trabalhadores da indústria armamentícia. Todos nós – políticos, economistas e consumidores – dividimos a responsabilidade pela morte e destruição causada por essas armas. Não vemos claramente o bastante, não nos manifestamos e não organizamos debates nacionais suficientes sobre esse enorme problema. Se pudéssemos discutir essa questão globalmente, soluções poderiam ser encontradas. Novos empregos devem ser criados de forma que não tenhamos que viver dos lucros da fabricação de armas.

Se formos capazes de trabalhar numa profissão que nos ajude a realizar nosso ideal de compaixão, deveríamos ser muito gratos. Cada dia, deveríamos ajudar a criar empregos apropriados para nós mesmos e para os outros viverem corretamente – de forma simples e sã. Despertar a nós mesmos e aos outros e nos ajudar e aos outros são a essência do Budismo Mahayana. O karma individual não pode ser separado do karma coletivo. Se você tem a oportunidade, por favor, use sua energia para melhorar ambos. Esta é a realização do primeiro dos Quatro Grandes Votos.

O DÉCIMO SEGUNDO TREINAMENTO
Reverência à vida

Consciente que as guerras e os conflitos causam muitos sofrimentos, estou determinado a cultivar a não violência, a compreensão e a compaixão em minha vida diária, promovendo a educação para a paz, a mediação plenamente consciente e a reconciliação dentro das famílias, comunidades, nações e no mundo. Estou determinado a não matar e a não deixar que outros matem. Praticarei diligentemente a observação profunda junto à minha Sangha para descobrir maneiras melhores de proteger a vida e evitar a guerra.

Em cada país do mundo, matar seres humanos é algo que é condenado. O treinamento budista de praticar não-matar estende mais ainda, para incluir todos os seres vivos. Contudo, ninguém, nem mesmo um Buda ou um bodisatva, pode praticar este treinamento de plena atenção perfeitamente. Quando damos um pequeno passo ou fervemos uma xícara de chá, matamos muitos minúsculos seres. A essência deste treinamento é fazer todo o esforço possível para respeitar e proteger a vida, continuamente movendo na direção da paz e da reconciliação. Podemos tentar ao máximo, mesmo se não pudermos ter sucesso 100%.

Este treinamento de plena atenção é ligado proximamente com o décimo primeiro. Nossos padrões de modo de vida e consumo têm muito a ver com as vidas e a segurança de humanos e outros seres vivos.

Há muitos tipos de violência. Entre as sociedades, se manifesta como guerra – frequentemente causada pelo fanatismo ou estreiteza ou pelo desejo de ganhar influência política ou poderio econômico. Violência pode ser também a exploração de uma sociedade por outra que é tecnologicamente ou politicamente mais forte. Podemos nos opor a guerras uma vez que tenham começado, mas é melhor fazer o nosso máximo para preveni-las. O modo de fazer isso é fazer paz.

Atingimos isso primeiramente em nossa vida diária através do combate ao fanatismo, apego a visões e trabalhando pela justiça social. Temos que trabalhar vigorosamente contra as ambições políticas e econômicas de qualquer país, incluindo o nosso. Se questões importantes como essas não forem debatidas no nível nacional ou internacional, nunca seremos capazes de prevenir a violência na sociedade.

Começamos estudando e praticando este treinamento de plena atenção de não matar na nossa vida diária e então poderemos levar as questões reais de violência e paz para toda a nação. Se não vivermos nossas vidas diárias plenamente conscientes, nós mesmos seremos responsáveis, em alguma extensão, pela violência estrutural. A quantidade de grãos usada nos países ocidentais para fazes bebidas alcoólicas e para alimentar o gado, por exemplo, é enorme. O professor François Peroux, diretor do Instituto de Matemática e Economia Aplicada e Paris, sugeriu que se houvesse redução do consumo de carne e álcool pela metade no ocidente, os grãos que estariam disponíveis, seriam suficientes para resolver toda fome e desnutrição no Terceiro Mundo. Mortes causadas por acidentes automobilísticos e problemas cardiovasculares no ocidente também reduziriam se o consumo de álcool e carne diminuísse.

Os orçamentos de defesa no ocidente continuam a ser gigantescos, mesmo depois dos cortes feitos depois do fim da Guerra Fria. Estudos mostram que se pudermos parar ou diminuir de forma significativa a fabricação de armas, teríamos mais dinheiro para eliminar a pobreza, fome, muitas doenças e a ignorância do mundo. Na nossa vida diária atribulada, temos tempo suficiente para olhar em profundidade para este treinamento de plena atenção de não matar? Quantos de nós podem honestamente dizer que estamos fazendo o suficiente para praticar esse treinamento?

O DÉCIMO TERCEIRO TREINAMENTO
Generosidade

Consciente do sofrimento causado pela exploração, injustiça social, pelo roubo e pela opressão, comprometo-me a cultivar a bondade amorosa e a aprender meios de agir para o bem estar das pessoas, animais, plantas e minerais. Praticarei a generosidade compartilhando meu tempo, minha energia e meus recursos materiais com aqueles que são necessitados. Estou determinado a não roubar e a não possuir qualquer coisa que deveria pertencer a outros. Respeitarei a propriedade alheia, mas tentarei evitar que outros tirem proveito do sofrimento humano ou do sofrimento de outros seres.

Ao levar para nossa consciência a dor causada pela injustiça social, o Décimo Terceiro Treinamento nos impele a trabalhar por uma sociedade mais suportável. Este treinamento é proximamente relacionado com o Quarto (Consciência do sofrimento), o Quinto (Modo de vida simples e saudável), o Décimo Primeiro (Modo de vida correto) e o Décimo Segundo (Reverência pela vida). De forma a entender este treinamento profundamente, precisamos meditar nesses outros quatro treinamentos.

Exploração, injustiça social, roubo e opressão vêm em muitas formas e causam muito sofrimento. No momento que nos comprometemos em cultivar a bondade amorosa, ela nasce em nós e fazemos cada esforço para parar aquelas coisas. Bondade amorosa (maitri em sânscrito) é a intenção e a capacidade de trazer alegria e felicidade para outra pessoa ou ser vivo. Mas mesmo com maitri como fonte de energia em nós, ainda precisamos aprender a encontrar formas de expressá-la. Temos que trabalhar como indivíduos e nos juntar como uma comunidade para examinar nossa situação, exercitando nossa inteligência e habilidade para olhar profundamente de forma que possamos descobrir maneiras apropriadas de expressar maitri no meio de nossos problemas reais.

Suponha que queiramos ajudar aqueles que estão sofrendo sob uma ditadura. Sabemos que enviar tropas para derrubar seu governo causará mortes de muitos inocentes. Olhando mais profundamente, com bondade amorosa, podemos perceber que a melhor hora para ajudar é antes do país cair nas mãos do ditador. Oferecendo aos jovens desse país oportunidade de apreender maneiras democráticas de governar seria um bom investimento para a paz no futuro. Se esperarmos até que a situação fique ruim, pode ser tarde demais. Se praticarmos juntos com os políticos, soldados, homens de negócio, advogados, legisladores, artistas, escritores e professores podemos achar a melhor maneira de praticar compaixão, bondade amorosa e entendimento.

O sentimento de generosidade e a capacidade de ser generoso não são suficientes. Precisamos praticar nossa generosidade. Isto leva tempo. Podemos querer ajudar os outros a serem felizes, mas somos capturados pelos problemas da nossa vida diária. Às vezes uma pílula ou um pouco arroz podem salvar a vida de um doente ou de uma criança com fome, mas podemos pensar que não temos tempo para ajudar. Custa somente cerca de 20 centavos de dólar para prover almoço e jantar para uma criança pobre em muitos países. Há muitas coisas simples como esta que podemos fazer para ajudar as pessoas, mas não fazemos nada porque pensamos que não podemos nos libertar do nosso estilo de vida ocupado.

Desenvolvendo maneiras de evitar que outros lucrem do sofrimento humano é o dever primário dos legisladores, políticos e líderes revolucionários. Contudo cada um de nós também pode agir nessa direção. Em algum grau, podemos ficar próximos de pessoas oprimidas e ajudá-las a se defender contra a opressão e exploração. Os votos de bodisatva são imensos e cada um de nós pode fazer votos de sentar com os bodisatvas na navegação de sua vida.

O DÉCIMO QUARTO TREINAMENTO
Conduta Correta

Consciente que relações sexuais motivadas por apego não podem dissipar o sentimento de solidão, mas apenas criar mais sofrimento, frustração e solidão, estou determinado a não me engajar em relações sexuais sem compreensão mútua, amor e compromisso de longo prazo. Nas relações sexuais devo estar consciente do sofrimento futuro que posso causar. Eu sei que para preservar minha felicidade e a dos outros, devo respeitar tanto meus direitos e compromissos quanto os das outras pessoas. Farei de tudo que estiver ao meu alcance para proteger as crianças do abuso sexual e proteger os casais e famílias da má conduta sexual. Tratarei nosso corpo com respeito e preservando minhas energias (sexual, respiratória e espiritual) para a realização do meu ideal de bodhisatva. Serei plenamente consciente da responsabilidade de trazer novas vidas a este mundo e meditarei sobre o mundo para o qual estamos trazendo novos seres.

Muitos indivíduos, crianças, casais e famílias foram feridos pela má conduta sexual. Praticar esse treinamento é prevenir que nós mesmos e os outros sejam feridos. Nossa estabilidade e a estabilidade de nossas famílias e da sociedade dependem disso. Praticar o décimo quarto treinamento é nos curar e à nossa sociedade. Quando estamos determinados nesse esforço, a energia que nasce nos ajuda a transformar em bodisatvas. Isto é o viver consciente.

No budismo, falamos em unicidade do corpo e do espírito. Seja o que for que aconteça ao corpo, também acontece ao espírito. A sanidade do corpo é a sanidade do espírito. A violação do corpo é a violação do espírito. A união de dois corpos pode apenas ser positiva quando há também entendimento e comunhão no nível do espírito.

A comunhão sexual deveria ser um ritual performado em plena consciência com grande respeito, carinho e amor. O verdadeiro amor contém carinho e respeito. É profundo, bonito e inteiro. Na minha tradição espera-se que o marido e a esposa se respeitem como convidados e quando eles praticarem esse tipo de respeito, seu amor e felicidade continuarão por um longo tempo. Na relação sexual, respeito é um dos elementos mais importantes.

O verdadeiro amor inclui o senso de responsabilidade, aceitando a outra pessoa como é, com todas as suas forças e fraquezas. A expressão “compromisso de longo-prazo” ajuda a entender a palavra “amor”. Um compromisso de longo prazo entre duas pessoas é apenas o início. Para uma árvore ser forte, precisa penetrar profundamente muitas raízes no solo. Se uma árvore tem apenas uma raiz, pode ser derrubada pelo vento. A vida de um casal também precisa ser apoiada por muitos elementos – famílias, amigos, ideais, prática e Sangha. Entender esse treinamento no contexto da comunidade é muito importante.

“Responsabilidade” é a palavra chave. Precisamos de plena consciência de forma a ter responsabilidade. Em uma comunidade de prática, se não há má conduta sexual, se a comunidade pratica bem esse treinamento, haverá estabilidade e paz. Vocês se respeitam, apóiam e protegem como irmãos e irmãs de Dharma. De outra forma, você pode se tornar irresponsável e criar problemas. Evitamos a má conduta sexual porque somos responsáveis pelo bem estar de muitas pessoas. Se formos irresponsáveis, podemos destruir tudo. Praticando esse treinamento podemos manter a Sangha bonita.

Precisamos discutir problemas relacionados à prática desse treinamento, tais como solidão, propaganda e mesmo a indústria do sexo. O sentimento de solidão é universal na nossa sociedade. Quando não há comunicação entre nós e os outros, mesmo na família, o sentimento de solidão pode nos empurrar para termos relações sexuais. A crença que ter relações sexuais nos ajudará a sermos menos solitários é um tipo de superstição. De fato, seremos mais solitários ao final. Quando não há comunicação suficiente com outra pessoa no nível do coração e do espírito, uma relação sexual apenas alargará a distância e destruirá a ambos. Nossa relação será tempestuosa e fará ambos sofrer.

Na prática do décimo quarto treinamento, deveríamos sempre olhar para a natureza de nosso amor pela outra pessoa de forma a ver e não sermos enganados pelos nossos sentimentos. Às vezes sentimos que temos amor pela outra pessoa, mas talvez este amor seja uma tentativa de satisfazer necessidades egoístas. Talvez não tenhamos olhado profundamente o suficiente para ver as necessidades das outras pessoas. Ele ou ela não deveria ser olhado como um objeto de nosso desejo ou algum tipo de item comercial. Sexo é usado difusamente em nossa sociedade como forma de vender produtos. Há também a indústria do sexo. Estas coisas são obstáculos para nossa prática. Você deve lembrar de olhar para o outro como um ser humano com a capacidade de se tornar um Buda.

Depois de muitos anos de prática ascética, Shakyamuni Buda percebeu que maltratar seu corpo era um erro e ele abandonou essa prática. Ele viu que ambos, indulgência dos prazeres sensuais e maltratar seu corpo eram extremos a serem evitados, que ambos levavam a degeneração da mente e corpo. Como resultado, ele adotou o Caminho do Meio entre os dois extremos.

Na Ásia dizemos que há três fontes de energia – sexual, respiração e espírito. A energia sexual é o tipo de energia que gastamos durante o ato sexual. Respiração vital é a energia que gastamos quando falamos demais e respiramos pouco. Espírito é a energia que gastamos quando nos preocupamos muito.

Precisamos saber como manter o balanceamento ou poderemos agir irresponsavelmente. De acordo com a medicina oriental, se essas três fontes de energia forem consumidas, o corpo irá enfraquecer, doenças irão aparecer. Então será mais difícil de praticar. No Taoísmo e também nas artes marciais, há práticas para preservar e nutrir essas fontes de energia.

Fonte: Viver consciente (introdução) e Viver consciente (parte 1 do livro)