A própria mentalidade religiosa, na forma como age a fim de favorecer o desenvolvimento do amor fraterno, revela a mente humana esculpida através dos tempos pela seleção natural, bem escondidinha por trás do véu negro da moralidade cristã. E o fato é que Deus não tem nada a ver com os nossos louváveis atos de generosidade e compaixão de uns para com os outros, é tudo relacionado a evolução e as caracteristicas da seleção natural.

Acha que a vontade quase incontrolavel de trepar se reproduzir é culpa do caráter da pessoa? não. É algo natural, uma vontade que ignora a existencia de alguem para atrair, existindo como a fome ou sede. Isto é tão real quanto o senso de auto-preservação que temos, ao encostar em uma superficie quente, o musculo se contrai involuntariamente para retirar a parte que se encostou do calor.

Para começarmos a filosofar refletir sobre as verdadeiras razões de sermos capazes de gestos de comovente bondade as vezes, bem como de nos solidarizarmos com pessoas que vemos sofrendo na televisão (e que nem mesmo conhecemos), é importante que nos façamos uma primeira indagação: se nosso senso moral não é uma dádiva divina conferida exclusivamente ao homem, mas sim uma adaptação efetiva (e positiva) de nossa evolução, será que ele tem algum precursor evolutivo detectável no mundo natural? Uma vez que nos perguntemos isso, basta passar a questão adiante para a natureza e ver o que ela própria tem a nos dizer. E o que ela nos responde prontamente é o seguinte:

Formiga operária especializada da espécie Myrmecocystus mexicanus, que regurgita o néctar contido em seu abdômen para alimentar suas irmãs em tempos de seca.

Formiga operária especializada da espécie Myrmecocystus mexicanus, que regurgita o néctar contido em seu abdômen para alimentar suas irmãs em tempos de seca.

a) Vários insetos estéreis vivem a vida promovendo um tipo absoluto de altruísmo para com outros de sua espécie: algumas formigas do gênero Myrmecocystus passam quase que todo o tempo penduradas no teto de seu ninho subterrâneo com os abdomens espantosamente estufados, repletos de alimento líquido, servindo de depósitos vivos, para que não falte alimento a seus parentes durante os períodos de seca. E elas ainda são comestiveis.

b) Um morcego-vampiro que conseguiu encontrar sangue durante uma caçada noturna pode regurgitar parte do sangue que consumiu, a fim de alimentar um morcego “amigo” que não teve a mesma sorte em sua expedição.

c) Medições em laboratório demonstraram que ratos apresentam um aumento de estresse extraordinário quando presenciam o sofrimento de um rato seu parente, em comparação com outro com que não tenham relações familiares.

d) Macacos são capazes de passar fome e não tocar na comida à sua frente, quando notam que, fazendo isso, outros seus colegas de jaula podem receber choques elétricos.

Estes são só alguns dentre inúmeros outros exemplos encontrados entre os animais, que deixam claro que a evolução conduziu e vem conduzindo muitos dos organismos viventes no sentido de desenvolverem comportamentos altruístas.

O exemplo do morcego-vampiro citado acima ilustra bem a situação: o morcego A regurgita parte do sangue consumido para dar de alimento ao morcego B e fica com crédito perante este, que mais tarde vai lhe retribuir o favor de forma semelhante. Mas é importante avaliar bem o comportamento do morcego A, para entendermos melhor a natureza de seu gesto, que é: sair no lucro! Isso mesmo! Afinal, ele regurgita parte do sangue que conseguiu, porém fica com a maior quantidade para seu próprio consumo (significando que seu sacrifício não representou todavia um grande prejuízo para si mesmo), ao passo que, para o morcego B, que não tinha conseguido sangue algum, o sacrifício do outro foi vital, e, logo, sua dívida para com o “amigo” é desproporcionalmente maior do que o sacrifício real feito pelo outro. No fim, o morcego A se alimentou e ainda garantiu o futuro comprometimento do outro para consigo, no evento de uma possível situação parecida mais tarde.

Vale lembrar no entanto que, se o gesto altruísta do morcego é interesseiro em princípio, isso não quer dizer que seja conscientemente interesseiro — como é óbvio, visto que estamos bem cientes da irracionalidade desse animal. O morcego não faz contas e calcula seus lucros! Ele apenas segue seus instintos que, por sua vez, só lhe impulsionam a agir em favor do outro porque a tática se deu bem no passado, no sentido do sucesso de sobrevivência e conseqüente aumento da chance de reprodução da espécie. No entanto, quando pensamos nos seres humanos, corremos o risco de não enxergar as coisas tão obviamente assim — temos uma forte tendência a não percebermos que o altruísmo humano é tão interesseiro quanto o de outros animais, sobretudo porque se parece com ele inclusive no sentido de que normalmente não temos consciência do interesse “egoísta” motivador.

“A seleção natural, nos tempos ancestrais, quando vivíamos em bandos pequenos e estáveis como o dos babuínos, programou impulsos altruístas em nosso cérebro, junto com impulsos sexuais, impulsos de fome, impulsos xenofóbicos, e assim por diante.

Um casal inteligente pode ler Darwin e ficar sabendo que o motivo último de seus impulsos sexuais é a procriação. Eles sabem que a mulher não ficará grávida porque está tomando pílula. Mesmo assim seu interesse sexual não fica diminuído por conta desse conhecimento. Desejo sexual é desejo sexual, e sua força, na psicologia individual, independe da pressão darwiniana que o provocou. É um forte impulso que existe de forma independente de sua explicação racional.
(…)
Nos tempos ancestrais, só tínhamos a oportunidade de ser altruístas em relação aos parentes próximos e a potenciais replicadores. Hoje essa restrição não existe mais, mas a regra geral persiste. Por que não persistiria? É a mesma coisa que o desejo sexual.

Não podemos fazer nada para deixar de sentir pena quando vemos um desafortunado chorando (mesmo que não seja nosso parente nem seja capaz de retribuir), assim como não podemos fazer nada para deixar de sentir desejo por um integrante do sexo oposto (que pode ser estéril ou incapaz de reproduzir). As duas situações são “erros”, equívocos darwinianos: equívocos abençoados e maravilhosos.

Não encare nem por um segundo essa darwinização como desmerecedora das nobres emoções da compaixão e da generosidade. Nem do desejo sexual. O desejo sexual, quando canalizado pelos conduítes da cultura linguística, ressurge na forma de grandes obras de poesia e de dramaturgia: os poemas de amor de John Donne, por exemplo, ou Romeu e Julieta. E é claro que a mesma coisa acontece com o redirecionamento equivocado da compaixão baseada no parentesco e na retribuição. A piedade em relação a um devedor, quando vista fora de contexto, é tão antidarwiniana quanto adotar o filho de outra pessoa.” (DAWKINS, Richard. Deus, um Delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, págs. 288-289.)

Ao que tudo indica, nosso altruísmo, nossa compaixão, dentre outros sentimentos e atitudes de que somos capazes uns para com os outros, surgiram todos a partir da evolução de características que, por um lado, por meio do auto-sacrifício de um em favor de seus parentes, possibilitaram o sucesso reprodutivo genético dos grupos animais que assim fizeram e fazem, e o insucesso e a extinção dos que não o fizeram (basta ver a abundância de animais sociais em relação a animais solitários), enquanto que, por outro lado, somando-se a isso, desenvolvia-se em nós a estratégia interesseira do altruísmo recíproco — do qual nos fornece uma curiosa metáfora a educação cristã, promovendo o amor ao próximo com base na ameaça de danação eterna nas chamas do inferno, em caso de negligência, bem como na promessa de salvação e vida eterna no tão-sonhado paraíso celeste para as almas caridosas. Com efeito, a avaliação cautelosa do comportamento humano e animal revela que nosso altruísmo evoluiu dessa curiosa dinâmica entre duas táticas bem-sucedidas no passado, sobretudo a do altruísmo recíproco, em que se busca favorecer alguém num momento, que possa retribuir o favor mais tarde — isso, desde que meu sacrifício não me traga um resultado negativo no somatório final.

Ao mesmo tempo, nem há motivo para se desesperar ao ler o que foi dito acima. Pois, antes de mais nada, é importante deixar claro que a idéia de “gene egoísta” proposta por Dawkins apresenta a expressão como uma metáfora para se tentar descrever a lógica da seleção natural: pensar nos genes como se tratando de agentes com motivos egoístas. Todavia, é importante salientar que, se por um lado os genes têm motivos metafóricos — isto é, fazer cópias de si mesmos — por outro lado os organismos que eles acabam estruturando têm motivos reais. E o mais importante de tudo: não são os mesmos motivos! Na verdade, não raro a ação mais “egoísta” de um gene pode ser instalar motivos verdadeiramente altruístas num cérebro humano — vínculo e desprendimento sinceros, sentimentos puros, profundos.

Assim, nossos impulsos para a dominação sexual bem como aqueles que nos levavam a atitudes egoístas e traiçoeiras em benefício individual tiveram de ser subjugados, sob a proliferação de organismos de cérebros mais adaptáveis às condições sociais que vinham surgindo. Aqueles homens com um sistema inibidor bem desenvolvido no córtex pré-frontal, destarte capazes de conter seu apetite sexual voraz, domar seu ímpeto selvagem, que os levaria em outros tempos a estuprarem qualquer fêmea à sua frente para satisfazer seu impulso básico de reproduzir, tiveram melhores chances de se desenvolverem no seio da sociedade moderna, ao longo da história. Ou melhor: a civilização é que na verdade só pôde se desenvolver com efeito a partir da sistemática e gradativa contenção desses traços impulsivos no comportamento humano, em especial no comportamento masculino.

Na verdade, tais valores apresentam-se como a forma de colhermos frutos positivos que não nos vêm pelo altruísmo voltado para os parentes nem pelo altruísmo recíproco. E, assim, a moralidade que desenvolvemos ao longo de nossa história nos faz ser mais atenciosos para com o bem-estar geral da sociedade. De forma que, mesmo que a manutenção de um código moral comum não seja a única maneira de garantir a colheita desses mesmos frutos, não há dúvida de que é a forma mais barata e dinâmica. Afinal, para pensarmos num exemplo ilustrativo, se todos nós, em virtude de uma moralidade comum (talvez utópica neste exemplo, admitimos), decidíssemos não beber antes de dirigir, ou não dirigir depois de beber, no fim acabaria sendo a sociedade como um todo que se beneficiaria disso. Não há o que discutir quanto a isso! Não é nenhum absurdo concluir que a maioria de nós ficaria melhor com a obediência ao contrato social sendo reforçada por um código moral internalizado do que por meio da repressão policial, por exemplo, atuando em todo lugar à nossa volta. Mas esse código moral, como exemplifica a ética da empatia, não é internalizado de maneira artificial e forçosa como é na moral teísta/por dever.

A Bíblia está longe de ser um apreciável guia de conduta moral para a humanidade. E a crença em Deus, pura e simplesmente, ao contrário do que muitos pensam, não é a base da moralidade de nossa espécie. E mesmo assim milhões de pessoas preferem ignorar todas estas informações porque é mais simples colocar a culpa de qualquer impulso humano em algo magico e imaterial pra tentar tornar as coisas mais emocionantes, oque não é nossa realidade. Convenhamos, o mundo nao é um lugar justo.

A psicologia, que é a ciência que estuda os misterios de nossa mente (por exemplo: deus), é a ciência mais nova de todas com cerca de duzentos anos. Só pra ter ideia a ciência mais antiga é a matematica, que seus primeiros estudos são estimados junto com o inicio da racionalidade humana! Sabendo disso, é de se esperar que novas descobertas quebrem tabus antes totalmente seguros e reais como a terra chata que quase matou galileu galilei e reconhecer que ainda há muito pela frente para se descobrir.

E como qualquer estudo de ponta muitas farças estão a surgir, e é exatamente para quem quer evitar elas que deve-se manter informado do que está acontecendo e o que querem que você saiba, pois controle de informação, mesmo sem alterar, pode gerar manipulação e sugestividade. Tome cuidado com as informações recebidas e controle seus impulsos. Faça como o guia do mochileiro das galaxias “NÃO ENTRE EM PÂNICO“.

Texto editado, copiado, clonado, recortado e inspirado a partir de:
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